Quinta-feira, pouco mais de dez e meia da manhã, sensação térmica de aproximadamente 40ºC(clima tipicamente Manauara). Numa parada de ônibus na Avenida Constantino Néry, observo agoniado o movimento dos carros e da população que afigura estar sempre atrasada. Sirenes tocam e num ato de empatia os motoristas abrem espaço para o Samu passar e o movimento continua. Além disso, percebo uma série de ultrapassagens perigosas que podem causar quaisquer fatalidades imprevisíveis, fato este muito perigoso e de total irresponsabilidade. O sinal fecha e surge entre os carros um garotinho desenvolto, aparentando ter quinze anos de idade, pardo, de cabelos cacheados, olhos claros, segurando nos braços seis garrafinhas de água mineral e usando uma pochete de cor preta na cintura.
Se trata de um jovem Venezuelano, tão pequeno, mas com uma força de vontade gigante no qual é perceptível em seu olhar. Mesmo em uma situação atípica e perigosa, ele se arrisca debaixo de sol ou chuva no setor informal desta metrópole, atuando como vendedor ambulante. Um certo motorista, abaixa o vidro esquerdo do carro, faz um movimento com a mão e o garotinho saí correndo para atendê-lo, repassa duas garrafinhas de água, pega o dinheiro, guarda na pochete e continua, repetindo o mesmo processo até seus braços ficarem livres.
Com o olhar atento a qualquer movimento,ele circula de um lado para outro na avenida, ora enxugando o suor que escorre pela face, outrora sorrindo para um colega que lhe espera do outro lado da rua que aparenta estar segurando uma caixa térmica utilizada para armazenar as garrafas de água. Ao perceber a sinalização amarela piscando nos últimos segundos, ele corre em direção ao seu parceiro. Juntos, dialogando, sorrindo, é assim que os vejo, transmitindo paz, seriedade, bondade e honestidade, caminhando pela extensa avenida, observando tudo em sua volta, dando por encerrado mais uma manhã de trabalho.
Essa é uma realidade de grande parte dos venezuelanos que buscam refúgio em Manaus, fugindo da caótica crise econômica e política de seu País. Percorrem mais de dois mil quilômetros, enfrentando uma grande batalha, em alguns casos, deixando para trás pai, mãe, filhos, esposas, companheiros, em busca de oportunidades de trabalho e ao encontrarem um lugar acolhedor, eles se instalam, são amparados por órgãos públicos e ONGs e tentam recomeçar uma nova história, com muita garra e determinação.
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